Diagnóstico precoce do glaucoma para evitar cegueira

Não dá para prevenir a doença, que tem características hereditárias. Tratamentos modernos podem manter padrão de vida e visão

Tudo o que vemos ao nosso redor está sendo transmitido para nosso cérebro, ao vivo, o tempo inteiro. Mas o processo para transformar a luz em informação visual começa na córnea, passa por todo globo ocular e chega até o nervo óptico. Suas fibras é que são responsáveis por levar essa informação para o cérebro.

Quando, por algum motivo, a pressão do olho aumenta, quem sofre primeiro é justamente o nervo óptico. “Esse aumento de pressão vai danificando suas fibras. Com a oxigenação ruim, as células vão morrendo, e fibra nervosa não se regenera”, explica o oftalmologista Álvaro Dantas, do Instituto de Cirurgia Ocular do Nordeste (Icone). Temos então um caso de glaucoma, doença que atinge um milhão de brasileiros de todas as idades, e é uma das causas mais comuns de cegueira irreversível, de acordo com a Sociedade Brasileira de Glaucoma.

Normalmente, a pressão intraocular fica elevada quando existe alguma obstrução no escoamento de fluido dos olhos. O motivo dessa obstrução ainda não é conhecido pela ciência, mas acredita-se ter relação com a genética. Estatisticamente, observa-se que o glaucoma é mais comum em pessoas negras, diabéticas e hipertensas. “É impossível evitar o glaucoma se você nasceu programado para desenvolver a doença. O que depende de você é ir ao médico e fazer medicina preventiva”, pontua Álvaro.

Sabendo disso, o representante comercial Adilson José de Assis, de 49 anos, sempre obedeceu aos médicos. Por ser míope, fazia consultas frequentes ao oftalmologista. Em uma dessas, há cerca de três anos, descobriu o glaucoma. “Eu não ia saber nunca se não tivesse ido. Foi muito importante ter o hábito de ir ao médico, porque descobri a tempo”, conta. Desde então, ele usa dois colírios para tratar a doença e controlar a pressão intraocular.

Já psicóloga Maria do Carmo de Andrade Lima, aos 55 anos, usa os colírios desde os 31. Ela sempre teve a preocupação de fazer visitas médicas regulares, mas o cuidado aumentou depois que foi diagnosticada com glaucoma. “Se eu tivesse levado mais tempo, poderia ter tido um problema maior”, diz. E não faz cara feia para os medicamentos. “Sou disciplinada. Entendi que podia ficar cega. As consequências são graves”, pontua.

O glaucoma é assintomático. Se o paciente tem queixas, é possível que ele já esteja com boa parte do nervo óptico destruído. Por isso a importância das visitas frequentes ao oftalmologista. “Atualmente, nas consultas regulares, o oftalmologista mede a pressão do olho, examina o nervo óptico, verifica se está com sinais de destruição”, diz. Essa rotina é essencial para a descoberta precoce do glaucoma e o tratamento, que pode parar a evolução da doença por longos períodos de tempo, mantendo a qualidade de visão e de vida em padrões normais.

REVOLUÇÃO NO TRATAMENTO

O principal objetivo do tratamento de glaucoma é baixar a pressão do olho para que as fibras não se danifiquem mais e a doença estacione. O tratamento medicamentoso é feito com o uso de colírios, uma ou duas vezes ao dia, para diminuir a produção de líquido ou melhorar a drenagem ocular, controlando assim a pressão.

Também existem cirurgias que podem ser recomendadas, caso as medicações não deem conta do recado. A cirurgia tradicional de glaucoma é chamada de trabeculectomia, um procedimento que cria uma ‘janelinha’ para escoar líquido do olho, em seguida absorvido pelo corpo de forma natural.

Hoje em dia, no entanto, além dos bons diagnósticos, existem procedimentos menos invasivos e mais eficazes, as chamadas MIGS (Microinvasive Glaucoma Surgery – em tradução livre, cirurgias de glaucoma minimamente invasivas). Desde 2017, o Icone passou a executar o implante do iStent, a menor prótese humana – e foi o primeiro centro do Norte-Nordeste e um dos primeiros do Brasil a pôr em prática esse tipo de cirurgia.

“A ideia vem do stent cardíaco, uma prótese colocada dentro do vaso obstruído para liberar a passagem do sangue. [Na oftalmologia] É um conceito parecido. O liquido não está saindo do olho, existe um impedimento na parede. Então o stent canaliza o local por onde o líquido sai do organismo. É um procedimento extremamente simples, minimamente invasivo, com riscos muito baixos”, defende Álvaro Dantas. A cirurgia promove a diminuição da pressão intraocular e cria a perspectiva de substituir o uso de medicações ou até mesmo de procedimentos cirúrgicos mais invasivos.

Adilson José foi um dos primeiros do Norte-Nordeste a receber o implante e a expectativa agora, depois da cirurgia, é poder abandonar os colírios. “[Usá-los] Não me incomoda. Mas se puder tirar, é melhor”, afirma, mencionando o preço elevado dos medicamentos, o que frequentemente compromete a aderência dos pacientes ao tratamento clínico.

Depois do diagnóstico e da operação, ele sabe a importância de um hábito aparentemente banal. “Foi muito importante ir ao oftalmologista com frequência”, pontua.

Expediente

16 de abril de 2017

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