Glaucoma sem mistério

Implante de stent intraocular, a menor prótese humana, é apenas um dos motivos pelos quais a doença não é mais um “bicho de sete cabeças”

Há cerca de 20 anos, o diagnóstico de glaucoma era visto como uma sentença de cegueira. Naquela época, não existiam exames, cirurgias ou medicamentos precisos para tratar a condição. “Os colírios eram fracos, incompetentes. Os exames não conseguiam medir se o glaucoma estava estacionado ou evoluindo. Era uma época com poucos recursos”, explica o oftalmologista Álvaro Dantas, do Instituto de Cirurgia Ocular do Nordeste (Icone).

Ainda hoje, o glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível e estima-se que atinja pelo menos um milhão de pessoas no Brasil, de acordo com a Sociedade Brasileira de Glaucoma. No entanto, os diagnósticos hoje em dia podem ser precoces e os exames, certeiros. Quanto ao tratamento, é possível controlar e até estacionar a evolução do problema com colírios eficazes e procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos.

Glaucoma é uma condição que afeta o nervo óptico, responsável por levar a informação visual ao cérebro, e pode causar perda gradual da visão. O principal motivo dessa degeneração é o aumento da pressão intraocular, provocada muitas vezes por um problema no escoamento de fluidos. Uma importante inovação é a chegada do iStent, menor implante do mundo, que visa diminuir essa pressão intraocular. O Icone foi o primeiro do Norte-Nordeste e um dos primeiros do país a pôr em prática esse tipo de cirurgia, que teve início em 2017.

Esse aumento de pressão vai danificando as fibras do nervo óptico. Com a oxigenação ruim, as células nervosas vão morrendo. E fibra nervosa não se regenera. Por isso, é uma doença que não tem cura

Álvaro Dantas, oftalmologista

“Esse aumento de pressão vai danificando as fibras do nervo óptico. Com a oxigenação ruim, as células nervosas vão morrendo. E fibra nervosa não se regenera. Por isso, é uma doença que não tem cura”, explica dr. Álvaro.

Pelo fato de a fibra nervosa não se regenerar, o implante (e todos os outros tratamentos disponíveis) não tem o poder de fazer a doença regredir, apenas diminuir a pressão ocular e estacionar seu avanço. O iStent é uma recente inovação que pode se tornar um substituto para procedimentos cirúrgicos mais invasivos e perigosos e, com a popularização do método, pode até mesmo vir a substituir o uso de colírios.

A ideia do implante é muito semelhante à do stent cardíaco: no coração, você coloca uma prótese dentro do vaso obstruído para que o sangue possa fluir. No olho é quase a mesma coisa. O stent é colocado no canal de Schlemm, onde o líquido está encontrando dificuldades para sair. O implante cria um canal para que o escoamento seja mais eficiente, diminuindo assim o acumulo de líquidos e, consequentemente, a pressão intraocular.

“O olho está o tempo todo produzindo líquido, e esse líquido sai o tempo todo pelos canais periféricos. Daqui a pouco, não se sabe a causa, começa a obstruir e o líquido começa a sair com dificuldades. A pressão começa a subir”, explica. “O iStent canaliza o fluxo. É um procedimento extremamente simples, minimamente invasivo, com riscos muito baixos”, defende Álvaro Dantas.

Apesar de ser uma tecnologia muito recente para o Brasil, o iStent já está disponível em 35 países. Mais de 300 mil implantes já foram realizados em todo o mundo.

CONSULTE-SE

O problema pode afetar qualquer faixa etária, desde crianças até idosos. É normal, porém, que ele vá evoluindo com a idade. Estatisticamente, é mais comum em pessoas negras, diabéticas e hipertensas.

É impossível evitar o glaucoma. O que depende de você é ir ao médico. Se você não faz uma medicina preventiva, você não vai detectar a doença cedo. Ela é assintomática.

Álvaro Dantas, oftalmologista

Por ter características genéticas e hereditárias, é muito difícil prevenir. O que se pode fazer é prezar pelo acompanhamento médico. “É impossível evitar o glaucoma. O que depende de você é ir ao médico. Se você não faz uma medicina preventiva, você não vai detectar a doença cedo. Ela é assintomática”, alerta Álvaro. Ou seja: só mesmo em consultório, através de exames, é que o aumento da pressão e lesão ao nervo óptico podem ser detectados. Quando o paciente começar a sentir algum incômodo decorrente do glaucoma, é porque a doença já está avançada. “Ele começa a sentir que não está vendo de lado. Começa a bater nas pessoas, tombar, não ver o copo, derrubar. Quando vai ver, está lá o nervo óptico todo destruído”, relata o oftalmologista.

Um dos primeiros pacientes a receber o implante no Norte-Nordeste foi o representante comercial Adilson José de Assis, de 48 anos. “Eu não sabia que tinha glaucoma. Fiquei bastante assustado, mesmo depois de o médico me explicar o que era. Só me tranquilizei quando soube que poderia controlar a doença”, explica o paciente. Desde que descobriu o glaucoma, Adilson vem utilizando colírios pra diminuir a pressão intraocular. Depois da cirurgia, é possível que ele não precise mais usar os medicamentos, que são caros, costumam irritar os olhos e se tornam uma obrigação diária (dependendo do caso, são mais de 5 gotas por dia), o que frequentemente compromete a aderência ao tratamento clínico. “Não me incomodo de usar os colírios, mas se eu puder deixar de usá-los, vai ser melhor. Eles custam muito caro e são pequenos, só 5 ml”, pontuou.

Se eu não fosse sempre, talvez não tivesse descoberto cedo. Talvez não desse tempo para mais nada.

Adilson José de Assis, paciente

A família de Adilson tinha histórico de glaucoma. A sorte é que ele obedecia muito bem aos médicos desde sempre. Míope, tinha o costume de visitar o oftalmologista de confiança pelo menos uma vez por ano. Ele sabe que essa atitude fez toda a diferença na hora de fazer o diagnóstico e o tratamento. “Se eu não fosse sempre, talvez não tivesse descoberto cedo. Talvez não desse tempo para mais nada. Eu diria para qualquer um: procure um oftalmologista”, aconselha.

Expediente

16 de abril de 2017

Diretoria
Laurindo Ferreira Diretor de Redação
Maria Luiza Borges Diretora adjunta de Conteúdo Digital
Vladimir Melo Diretor Comercial
Conteúdo
André Amorim Produção e reportagem
Lorena Aquino Produção e reportagem
Edição
Fernando Carvalho Editor / JC360
Imagens
Ashlley Melo
Edição de Imagens
Walter Klécius
Design
Bruno de Carvalho Design e Front end
Moisés Falcão Design e Front end