Fomos programados
para beijar


Texto de Flávia de Gusmão
Produção do ensaio de capa de Arlene Carvalho e Giovana Torreão
Fotos de Luiz Pessoa
Intervenção gráfica nas fotos da capa de Eduardo Mafra


Aprendemos a beijar muito antes de sabê-lo. Assim como sabemos que somos muito antes de entender quem e por que somos.

O que seria a boca do recém-nascido grudada no peito senão o primeiro e desesperado anseio pelo contato que insufla a vida? A necessidade de se fundir com o outro ao menos naquele momento premente. Como se nada mais de interessante pudesse existir além desse ato. Sugar o outro é uma tentativa sempre vã de obter a sua essência.


A adolescência nos arremessa na dúvida de termos desaprendido o que fazíamos naturalmente. É a fase em que beijamos travesseiros, e o espelho. Só para treinar quando o momento verdadeiro vier. E ele sempre vem, naturalmente. Fronhas babadas e vidros embaçados são a prova cabal de que algumas coisas nunca são desaprendidas, como andar de bicicleta.

Tão interessante quanto o ato de beijar é o momento que o antecede. Existe um mirar que perde o prumo. Os olhos que deveriam se fixar na retina, escorrem um pouco mais para baixo, para a boca. Quando a força gravitacional do beijo tão desejado se põe em ação não há como escapar. Sugados que somos para o olho do furacão. Os lábios viram pestanas, e por ali a gente entra. A gente entra no outro.


A autoconsciência é inimiga do beijo. Porque ela transforma necessidade em performance. É a fase do conselho, da tecnicalidade. Quando tem sempre alguém mais “experiente” para ensinar. Deixa a língua mole, deixa a língua dura, deixa meio calabresa e meio peperoni. Beijo não é nado sincronizado e nem sempre tem aquela suavidade devidamente enquadrada em lindos close ups e câmera lenta. Isso é cinema. Em beijo de verdade, dentes batem, a saliva escorre ou seca, deixando a língua como se fosse feita de lixa. E ninguém se importa. Porque esse verdadeiro beijo, quando acontece, tem o poder de lhe jogar numa piscina de champanhe na qual flutuam alguns canapés. O paraíso é uma construção bastante exclusiva, e esta é a minha.

Beijo tem a ver com urgência de ambas as partes, nunca com submissão. Beijo forçado é imposição, invasão e domínio. Beijo beijado é a rendição voluntária do estado sólido para o estado fluido. Vamos nos liquefazendo a partir dos lábios, passando para a língua e daí para todo o corpo: dois braços parecem insuficientes para abarcar tantas informações sensoriais disparadas ao mesmo tempo. Usamos as pernas, o tronco, queríamos ser um polvo, uma nebulosa, corpo celeste difuso constituído basicamente de poeira, hidrogênio, hélio e plasma. E assim, feito galáxias, ocupamos e somos ocupados através das mínimas frestas. Beijos trocados no momento certo são como o cavalo de Troia, desarmando a mais inexpugnável fortaleza.


Fomos programados para beijar. Essa é que é a verdade. Quando assomados por um ternura indescritível ou um volúpia incontrolável, voltamos nossa face para outra face, nem que seja para tocá-la levemente e aspirar seu cheiro. Cheiro, aliás, é uma versão mais etérea do beijo.

O cheiro do gelo quando se abre a porta do congelador. Do café perfeito, com três colheres e menos de meia para uma xícara (forte, eu sei), da marca favorita. Mas, para ficar perfeito, a água da chaleira tem que ser tirada um pouco antes da ebulição. Cheiro é coisa séria. É uma colher de chá de manteiga para fazer um ovo mexido, e prestar atenção ao ponto no qual ela fica levemente marrom, mas não queimada demais. Se não, muda tudo. E a gente se reagrupa. Cede, mas não fica feliz. Cheiro é coisa séria. Uma vez conjugados, cheiro e prazer jamais te deixarão. Aí está porque nós, pernambucanos, dizemos, um cheiro, em vez de um beijo.

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