Kasparov:
combinação entre homem e máquina
nunca será superada

Em entrevista a NE10Mag Garry Kasparov, consideramo o maior jogador da história diz que medo de sermos superados atrasa ainda mais o desenvolvimento da inteligência artificial.

Por Renato Mota


Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez, é considerado o maior jogador da História. Entretanto, para o público geral, o russo é muito mais conhecido não por suas vitórias, mas por uma derrota - quando em 1997 perdeu uma partida para o supercomputador da IBM, Deep Blue, um evento que foi considerado um marco no desenvolvimento da computação e da inteligência artificial.

Vinte anos depois, Kasparov não guarda nenhum rancor das máquinas. Muito pelo contrário: quer ver humanos e computadores trabalhando cada vez mais próximos. “É uma questão de equilíbrio entre nossas habilidades. Máquinas fazem muitas coisas melhor do que seres humanos, mas nunca nos substituirão 100%. Temos que aprender a trabalhar no que nos cabe, uma intervenção limitada que pode nos fazer atingir um potencial ainda maior”, contou o russo no Watson Summit 2017, um evento promovido pela IBM em São Paulo.

A arrogância de acharmos que somos superiores e o medo de sermos superados são dois fatores que atrasam o desenvolvimento ainda maior da inteligência artificial, na opinião de Kasparov. “Acidentes com carros autônomos rapidamente viram notícia, ignorando os milhares que ocorrem por falha humana. Daqui a 25 anos, nossos filhos e netos estarão lendo os livros de história e se perguntando como éramos loucos de pilotar nós mesmos”, afirma o ex-campeão mundial da xadrez.

A capacidade computacional do Deep Blue de 1997 é inferior a qualquer smartphone atual (de acordo com Kasparov, os aplicativos de Xadrez já são adversários superiores ao seu rival clássico), mas o ex-campeão conta que esse desenvolvimento já era mais do que esperado. “As pessoas não lembram, mas o jogo que perdi foi uma ‘revanche’. Em 1996 eu ganhei o desafio mas perdi algumas partidas. Foi aí que percebi que até ser derrotado completamente seria uma questão de tempo”, lembra.

Kasparov disputando uma partida de xadrez contra o conputador
Foto: divulgação

Atualmente, Kasparov é escritor, ativista político e entusiasta do desenvolvimento da inteligência artificial. “Prefiro chamar de ‘inteligência aumentada’. A máquina sozinha faz muita coisa, mas tem um limite - da mesma forma o ser humano. Máquinas podem superar humanos, mas a combinação de homem e máquina nunca será superada por ambos isolados”, acredita. O lema do ex-campeão é: “se o computador é melhor nisso, deixe ele fazer. Mas máquinas só entendem padrões, e tudo que foge do padrão é campo para a sensibilidade e criatividade humana”.

Kasparov disputando uma partida contra Arnold Schwarzenegger
Foto: divulgação

Parte do medo que as pessoas têm da inteligência artificial vem ainda, segundo Kasparov, da cultura pop. Em muitos filmes vemos a humanidade ameaçada por robôs ou máquinas inteligentes - mas para o russo, essa é uma interpretação errada. “Em Exterminador do Futuro 2, por exemplo, os heróis só vencem quando humanos (John e Sarah Connors) se unem com a máquina (T-800 de Arnold Schwarzenegger)”, lembra. Mas quando teve oportunidade de encontrar o ator e ex-governador da Califórnia, Kasparov confessa que foi diferente. “Deixei ele ganhar”, brinca.

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