Música latina
para nosotros

Música latina
para nosotros


Por Julliana de Melo
Fotos: Leo Motta/JC Imagem
Bailarinos: Brenda Souza e Carlos André


Se você, assim como eu, está vivendo no planeta Terra neste ano de 2017 certamente, em algum momento, se rendeu a cantarolar - e se remexer - ao som daquele sucesso-chiclete dos porto-riquenhos Luis Fonsi e Daddy Yankee. O reggaeton parece mesmo grudar. Logo a gente é levado pelo ritmo até cantarolar o refrão bem DES-PA-CI-TO. Não é à toa que até os artistas brasileiros - como Anitta que fez parceria com o colombiano Maluma para depois lançar sozinha o hit Paradinha- estão apostando as fichas em músicas cantadas em espanhol. A música latina - para as gerações mais novas, claro - nunca esteve tão em alta no País. Mas o que está acontecendo? ¿Qué pasa?

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Foto: Ricardo B. Labastier/ JC Imagem

Às vezes, esquecemos que, geograficamente, o Brasil também faz parte da América Latina. Nosso idioma não é o espanhol porque fomos colonizados por países europeus diferentes, mas somos em essência latinos, com todos estereótipos, preconceitos e agruras, além do poder quase sobrenatural de resiliência e criação. E essa mistura está presente na nossa produção musical – embora, apesar dos modismos sazonais, infelizmente, não exista mais um intercâmbio cultural perene. “Entre os anos 30 e 50, o Brasil era um dos melhores mercados para a música do continente Sul-americano e do México”, lembra o jornalista e crítico de música do Jornal do Commercio, José Teles.

Teles conta que a música latino-americana teve impacto no Recife com a gravadora pernambucana Rozenblit, a maior do ramo fora do eixo RJ-SP, que era distribuidora no Brasil da Seeco, principal gravadora de Nova Iorque do gênero. “Os discos de latinos eram distribuídos pelo Norte e Nordeste, e aqui no Recife fizeram muito sucesso, sobretudo porque era música para dançar. Era a trilha das gafieiras dos subúrbios e seus efeitos se podem sentir até hoje.” Nos sebos de CDs piratas do Centro encontramos merengues, salsas, cumbias e a bachata dominicana, variante do bolero. Ritmos que reinam também na Cubana, do Clube Bela Vista, de Edinho Jacaré e Valdir Português, reduto de música latina em Água Fria, na Zona Norte.

Depois do sucesso da Bossa Nova, no entanto, os latinos foram deixando de emplacar no País. Além dos fenômenos isolados Menudo (nos anos 80) e RBD (2004-2006), artistas como Maná, Juanes, Julieta Venegas, Fito Páez e Ricky Martin até que conseguiram furar o cerco brasileiro contra a música em espanhol, mas nada que fomentasse um mercado hispânico. “A cultura latina no Brasil se dá principalmente pela televisão, só desponta através dos sistemas midiáticos quando estes têm o interesse”, ressalta Thiago Soares, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador do Laboratório de Análise de Música e Audiovisual (LAMA).

Foto: acervo pessoal

Grande parte dos artistas latinos foi ‘apresentada’ ao mercado fonográfico brasileiro após ser tema de novelas, vide Tropicaliente (1994) e Kubanacan (2003), da TV Globo. “A música latina precisa de uma instituição que a chancele, como a TV, o cinema, ou parcerias com artistas de fora, como aconteceu com Despacito, que só bombou no mundo após ser regravada pelo canadense Justin Bieber. "O que nos leva a pensar que a fruição da latinidade ainda é colonizada”, explica Thiago, que além de jornalista e DJ (Thikos), pesquisa sobre música pop em Cuba, com foco no reggaeton e suas transformações na ilha comunista. Lá, o ritmo é censurado pelo regime, apesar de difundido clandestinamente nos “paquetes semanales”, CDs piratas que reúnem a produção latina. “O reguetón, para juventude cubana, é resistência e passa pela questão de classe, de identidade e sentido de pertencimento a uma pan-latinidade. É chamado de maledito pelo governo por reforçar o imaginário capitalista, do consumo de bens e ostentação, e tem como porto logístico Miami, a grande Utopia diaspórica da América Latina”.

A presença de latinos em Miami é tão forte que a cidade acabou virando sede das maiores gravadoras de música latina, atraindo artistas já consagrados e os que querem se tornar. Como o paraibano Yegor Gómez, ex-vocalista da banda Capim Cubano, que fez sucesso no Brasil durante os anos 2000 e colocou muita gente para requebrar ao som de “Teresa Bandolera” e outros hits no saudoso bar Cuba do Capibaribe, no Recife Antigo. “Depois de sair de um reality show de bandas no Brasil (SuperStar 2015), coloquei na cabeça: eu tenho que ir aonde existe um movimento e se escuta 24h de música latina por dia. Há um ano e meio vim para os EUA, e gravei o CD Yegor Miami Station”, conta com o orgulho de, mesmo após ser vítima de um golpe e perder dinheiro, ver seu trabalho render frutos. Além de ter shows agendados pelo país, Yegor comemora a seleção do seu álbum em três categorias do Grammy Latino. “O CD passou até a 2ª etapa, mas já estou muito feliz”. E outra novidade: de dezembro a janeiro de 2018 ele voltará ao Brasil para uma mini turnê do show “Reggaeton Beat”, passando por Recife, Natal, João Pessoa e Fortaleza.

* Yegor Gómez fala sobre o desafio de fazer música latina e sua jornada nos EUA. Foto: divulgação
Foto: divulgação

Em Miami também está o colombiano Juan Sebastián Naranjo, vocalista e guitarrista da banda de pop rock Gatoblanco. Nos EUA por motivos pessoais, aproveitou para investir na música, claro. Lançou nas plataformas de streaming em junho passado o elogiado álbum Tres, o 3º do grupo e o 1º que leva o selo independente Miami South Mountain Music e One RPM, que contou na parte da técnica com a participação de indicados e ganhadores de Grammys latinos. “Colômbia passa por um bom momento porque muitos artistas independentes, como Esteman, Juan Pablo Vega, Monsieur Periné, Manuel Medrano e Paula Arenas, são reconhecidos fora do país.” Além de melhor estrutura, o campo estrangeiro também é fértil para parcerias. “Estou produzindo também o projeto Rosa Rosa. É um duo de rock em espanhol com Felipe Navia (ex-baixista de Juanes)”. Ele atua ainda no Art House Society, site do estúdio de gravação Miami Art House, do produtor de celebridades Julio Reyes Copello, com entrevistas de artistas jovens latinos e dicas para iniciantes. Indicadíssimo.

Sobre o intercâmbio com o Brasil, no entanto, Juan Sebastián Naranjo afirma que o cenário não é estimulador, principalmente quando se faz rock em espanhol. “Os artistas latino-americanos custam muito a entrar no Brasil. De certa forma, o mercado brasileiro é autossuficiente”, resume. Sem políticas públicas de incentivo, cabem aos festivais de música dar visibilidade aos artistas latinos que fogem de um som, digamos, mais tradicional. “O que chega no Brasil, quando chega, é a música estereotipada, por isso, buscamos sempre o que está acontecendo de novo na América Latina”, diz o jornalista e produtor Antonio Gutierrez, que há 22 anos comanda o RecBeat durante o Carnaval na capital pernambucana – nos últimos 10 anos com espaço regular para a produção Ibero-Americana. “Recife já foi palco de shows memoráveis como o da chilena Ana Tijoux, a Orquesta Tipica Fernández Fierro, da Argentina, e Bomba Estéreo, quando ainda nem era tão famosa na Colômbia. Mas falta um fomento. O festival acaba assumindo esta lacuna, e aproximando as bandas latinas e brasileiras em trabalhos híbridos”, conta.

Foto: acervo pessoal

Outro personagem de relevância na difusão da música latina pelas bandas de cá é o DJ 440, como é mais conhecido o olindense Juniani Marzani. Criador da Terça do Vinil, ele comanda, pelo menos uma vez por mês, o projeto "DJs Maliciosos apresentam: Cubana do Baixo Boa Vista", na Tropicasa, localizada na área central. Pesquisador de raridades, o disc jockey acredita que o pernambucano é um povo que “adora essa coisa latina”. “Você anda pelo Centro do Recife ou pelos morros e, além do brega e a música pop que toca na rádio, é fácil encontrar alguém, ou algum vendedor de CD ou loja, tocando uma cumbia, uma salsa. Eu já viajei bem o Brasil e isso é uma coisa bem característica nossa”, revela. Como DJ, ele assume a missão de reverberar também o melhor da música latina. “Nunca daria pra nós, DJs e produtores, trazermos todo mês um grupo de fora pra tocar. Nós somos a orquestra e responsáveis em apresentar novidades e manter o fogo aceso. A gente se diverte, o público se diverte e todo mundo ganha”.

Foto: Leo Motta/JC Imagem

O MELHOR DA MÚSICA LATINA

Em tempos de streaming, opções não faltam. Mas indicações são sempre bem-vindas. Por isso, pedimos aos nossos entrevistados para montar suas playlists com “As músicas latinas que todo brasileiro deveria conhecer”. Para ouvir e bailar.


POR JOSÉ TELES

POR DJ THIKOS

POR YEGOR GÓMEZ

POR JUAN SEBASTIÁN NARANJO

POR ANTONIO GUTIERREZ

POR DJ 440

Duas décadas para mostrar quem manda no pífano

Elas contrariam a tradição - que bom - e integram a única banda de pífanos formada por mulheres da qual se tem registro. "Na banda, as dores da gente vão embora", garante uma das integrantes do grupo.

Por Ana Maria Miranda


Salvina, 80 anos, Angelina, 80, Maria José, 71, Margarida, 70, e Maria das Dores, 64: algumas são viúvas, têm vários filhos, outras trabalham e ainda cuidam da casa, fazem aulas de dança, crochê, entre outras atividades. Juntas há cerca de 20 anos, formam a banda de pífanos do grupo Moisés, mais conhecida como Banda de Pífanos da Terceira Idade.

Segundo a Fundação de Cultura e Turismo de Caruaru, a banda de pífanos é a única formada por mulheres da qual se tem registro. Tradicionalmente, os grupos são formados por homens. As bandas de pífano ou pife reúnem instrumentos como o pífano, a caixa, a zabumba, o surdo e os pratos.

A Banda de Pífanos da Terceira Idade começou a partir de uma iniciativa da irmã Werbuga, de levar o artista João do Pife para abrir uma oficina de pífanos no Centro Social São José do Monte, que acolhe há quase 50 anos pessoas em vulnerabilidade social no bairro São Francisco, em Caruaru, Agreste pernambucano. Três integrantes já faleceram, outras precisaram deixar a banda por problemas de saúde. "A gente sempre puxa outra para a banda não acabar", diz o professor João.

Margarida do Pife

Quando começou a frequentar a oficina, Margarida do Pife nunca tinha tido contato com o instrumento. Hoje, diz que quer levá-lo ao caixão. "Eu adoro participar desta banda porque é um divertimento lindo e maravilhoso. É um divertimento para a gente e um divertimento para os outros. O povo fica tudo admirado. Eu me sinto muito orgulhosa. Doença que eu tenho deixo em casa ou deixo pelo meio do caminho", diz.

As outras integrantes também não tinham contato com os respectivos instrumentos. "É muito gostoso, quando a gente está na banda, as dores que a gente está vão embora. A gente fica nova, estando nessa bandinha", diz Angelina. "Se eu pudesse, todo dia ia tocar no meio do mundo. Junto com nossas amigas, que são muito alegres", afirma Dora. "Eu gosto de tudo, sou viúva há 14 anos, fico em casa sozinha o dia todinho e meu divertimento é aqui. A gente se entende", relata Salvina.

Aos poucos, a banda foi saindo da sala de aula e realizando apresentações em eventos culturais da região. Hoje, são Margarida do Pife, Dora da Caixa, Maria José do Surdo, Salvina do Prato e Angelina da Zabumba. Anualmente, aparecem nas festas tradicionais de Caruaru, como Semana Santa e, claro, São João. A cada ano, garantem, o número de contratações aumenta. "Todo lugar que a gente toca é uma festa, todo mundo para para olhar", diz Margarida.

João do Pife

João do Pife

A história de João, 74 anos, com o pife é de longa data. Natural de Riacho das Almas, começou a tocar aos 10 anos, através dos ensinamentos do pai. Pai e filho tocavam o instrumento nas novenas na zona rural do município. Trabalhando na roça desde cedo, o professor diz que nunca teve estudo, mas o talento com o pífano o levou para 26 países, entre eles Estados Unidos e França, onde se apresentou e formou bandas. Mudou-se para Caruaru em busca de oportunidades e foi direto para a feira, onde vende os instrumentos que fabrica. Ele conta com o maior orgulho que ficava próximo aos bonecos de barro do Mestre Vitalino. Relata ainda que, na época, sofreu resistência de fiscais da prefeitura, pois tocava o pife sentado em frente ao banco, atraindo curiosos e turistas.

Pindorama:
Recife vira a versão tupiniquim de Gotham City

Por Luana Nova
Fotos: Luiz Pessoa


A arte imita a vida ou seria o contrário? A trama da HQ Pindorama, assinada pelos estreantes pernambucanos Erick Volgo e Lehi Henri, se passa num Recife pós-apocalíptico, onde a Zona Sul da capital pernambucana foi inundada por um tsunami e transformada em “Hellcife”, a cidade submersa. No entanto, apesar do cenário distópico como plano de fundo, o quadrinho traz reflexões pertinentes sobre aspectos da atual realidade socioeconômica e política brasileira, com linguagem acessível e questionadora.

Através de um universo fictício, o piloto do primeiro arco de Pindorama - idealizado em uma temporada de dez volumes - debate temas como corrupção e questões sociais e de gênero, nos quais a ganância do homem perpassa sua própria ameaça de morte. Os diques que deveriam ter sido construídos para conter as ondas do mar em parte da cidade não são concluídos pelo governo devido ao superfaturamento da obra, ao uso de material de pouca qualidade... Ou seja, ao descaso público e à ambição. Depois do desastre, apenas a Zona Norte e o Centro do Recife resistiram, fazendo do município de Caruaru a nova capital de Pernambuco. A ironia divina de ver a população migrar em direção às áreas de seca, mesmo com abundância de água, batizou a primeira parte da série: “O Sertão Vai Virar Mar”, como diria a profecia do messiânico Antônio Conselheiro.

Autor da HQ Pindoram

Na área submersa, alguns ribeirinhos habitam o topo dos arranha-céus abandonados como se fossem palafitas de luxo. A Zona Sul virou capital do crime, do tráfico e de experimentos macabros, onde as vítimas são jogadas aos tubarões. Entre as suas mais de 50 páginas, o gibi compara Hellcife a “uma versão possível de uma Gotham City tupiniquim” e afirma que “chamar a cidade de perigosa seria um eufemismo”. Na Veneza brasileira que resiste, sob a proteção de um muro, os dois protagonistas da trama são apresentados: Samuel, o herói e narrador da história, e Maria Bonita, a anti-heroína e líder de uma gangue de travestis baseada no cangaço. O primeiro é um “moleque de prédio” que, em meio a uma cidade caótica e a um sistema político podre, se vê numa crise existencial. Já Maria Bonita é uma espécie de justiceira.

Para Samuel, tudo parece sem sentido e sem conserto até que ele decide adentrar em Hellcife para tentar descobrir a identidade do chefe do tráfico, ironicamente conhecido como Coronel e, dessa forma, proteger sua namorada, a jornalista investigativa Júlia. Segundo Volgo, roteirista do quadrinho, Samuel é o cara que ainda está preso aos valores do mundo convencional e que tem suas verdades o tempo inteiro colocadas à prova. Chegando na capital do crime, o protagonista desenvolve poderes misteriosos após ter sido cobaia de experimentos científicos. Ainda conforme Volgo, ele ganha sua alcunha de super-herói, o Calango, no terceiro volume da série. “Calango veio da palavra nordestina para lagarto. Em inglês, traduzimos como Gekko”, explicou.

Personagem Maria Bonita da HQ Pindorama

Com relação à Maria Bonita, o roteirista diz que é alguém que cresceu às margens e que conseguiu criar um senso próprio de justiça sem, porém, se sujeitar à hipocrisia moral e à virtude. “Ela é o nosso outro, nosso ‘Beijo no Asfalto’ ou nosso Wolverine e representa um pouco a história, a subjetividade e a politização de amigos e estudos LGBTs, especificamente as trans e as travestis, e os que sofreram ao longo de suas vidas com o preconceito e a exclusão”, acrescentou sobre a anti-heroína, cuja estética foi criada do zero por Lehi, ilustrador da obra. “Pensei em roupas totalmente claras por conta do forte sol de ‘Hellcife’, com um toque futurista e cangaceiro. Apesar da roupa parecer muito colada e desconfortável, cada parte dela pode se tornar uma arma. O chapéu, por exemplo, quando jogado ao ar, cria lâminas”, comentou, sem saber se esse adereço vai ser usado nas próximas edições, já que cada uma será produzida por um artista diferente. No volume dois, a vez é do ilustrador Rapha Pinheiro.

Todos os desenhos de Pindorama foram feitos diretamente no computador, bem como sua pintura, com cores vivas e bem repartidas. Segundo Lehi, que também foi colorista do quadrinho, lápis e papel apenas foram utilizados para fazer os conceitos. “Quando pensei em criar a estética de Pindorama, imaginei algo tipo cartoon, mas sem tanto contorno, e um pouco de brincadeira com luz e sombra. Então, fui buscar inspiração em Pascal Campion (ilustrador e animador franco-americano)”, comentou. Ainda conforme Lehi, algumas ilustrações foram criadas desde 2015. “Com o projeto aprovado, só fiz lapidar o que já tinha criado”, afirmou, ressaltando que a cena dos prédios embaixo d’água foi a que mais se orgulhou em fazer.

Sobre o título do gibi, a ideia, segundo o roteirista, é criar uma alegoria para se falar do Brasil. “Pindorama é uma palavra indígena que significa ‘Terra das altas palmeiras’, e o Recife, uma cidade que se verticalizou de forma desordenada, aparece como paralelo”, explicou. Tratando-se de um conflito universal com características culturais locais, a obra mostra ao mundo que o Recife não é só mangue, mas também concreto.Para Volgo, a cidade se revela tão personagem quanto as figuras humanas e seus dramas pessoais. “Recife está o tempo todo se impondo contra as personagens através de suas dificuldades. É como um megazorde da soma de conflitos e vivências”, refletiu. Além do aspecto narrativo e visual, Pindorama traz também o ético: faz pensar sobre as relações sociais e de poder. Permite olhar de fora e de longe para uma coisa que está perto. Não é à toa que na última página do volume (spoiler alert) está grafado um “Tchau, querida”.


Serviço

Financiada pelo Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura) e lançada no dia 13 de abril durante a Comic Con Tour Nordeste, no Centro de Convenções, em Olinda, Pindorama está disponível gratuitamente para download e leitura online. Para acessar, basta clicar [aqui] / acessar a fanpage @PindoramaHQ no Facebook.

“Um universo que existia dentro de mim virou algo real que foge ao meu controle”

Erick Volgo

A repórter Luana Nova conversou com Erick Volgo, acompanhe a entrevista:


Erick Volgo, autor da HQ Pindorama
NE10 – Erick, você é formado em Direção Teatral, quer dizer que você não produz roteiro somente para os quadrinhos, certo? Em que essa formação em teatro te alimenta como quadrinista?
Volgo – Me formei em direção teatral na UFRJ. Desde criança fiz teatro, isso me ajudou a entrar num mundo onde o palco era porta aberta para experimentação narrativa. O ato de contar história sempre foi o que mais me fascinou no teatro, o ambiente ficcional e as potencialidades da dramaturgia de apreender verdades universais. O teatro surgia como um espaço onde a narrativa se dava através de diálogos, como na vida, mas que se completava na direção, atuação, figurino, cenografia, luz... De uma forma semelhante o quadrinho subverte a palavra ao usar estímulos visuais, expressões e cores que expandem as sensações.
NE10 – Quando e em que circunstância surgiu a ideia do enredo de Pindorama?
Volgo – A ideia de Pindorama surgiu, se não me engano, em 2011, quando fazia um curso de desenho digital que serviu para complementar meu interesse pelo quadrinho como gênero narrativo e entender suas especificidades próprias. Na época, eu passava um semestre no Recife, e o ato de voltar depois de um longo tempo fora me fazia estranhar a cidade como alguém que está inserido e ao mesmo tempo não está. Pindorama é um recorte de interesses e influências, da imaginação e das coisas que observava ao meu redor e que foram servindo para eu criar esse universo de forças conflitantes. As tensões sociais, as minorias, a desigualdade, todas num universo fantástico. A distopia é um cenário interessante porque corresponde ao sentimento geral de inadequação ao mundo.
NE10 – Que obras ou autores te inspiram? Você bebeu de alguma dessas fontes para construir a narrativa de Pindorama?
Volgo – Sou uma coleção de muitos autores que me inspiram. Uns de teatro, outros de literatura, mas dentro do gênero de Pindorama sou altamente influenciado pelo universo de Stan Lee, e autores como Joss Whedon, Neil Gaiman, Frank Miller e Alan Moore. Buffy, por exemplo, é uma história fantástica que ganha uma dimensão muito maior quando olhamos para os conflitos internos e complexidade dos personagens. Isso me fascina.
NE10 – Como se deu a concepção dos personagens? E como é a sua relação com eles? Tem preferência por algum?
Volgo – Os personagens, que espero que cresçam e se desenvolvam ao longo da série, são alegorias de pessoas e personagens, seus sonhos, motivos, traumas e reivindicações que conheci ou li sobre ao longo da vida. Na verdade, elas são um pouco da perspectiva de como meu protagonista foi profundamente tocado, inspirado, traído por elas. Pegar vários personagens, cada um com sua particularidade e colocá-los para se relacionar. Na vida temos profundo impacto na vida uns dos outros. Tenho carinho por todos os personagens e procuro fazer com que eles não sejam apêndices para o protagonista, mas tenho carinho especial pelo narrador Samuel e seu contraponto, Maria Bonita, por quem ele é profundamente atravessado. Pelo encontro dessas duas realidades distintas.
NE10 – Por que você escolheu o Lehi Henri para os desenhos? Como funciona a parceria de vocês? Ele participou do desenvolvimento do roteiro ou é mais o criador visual da história?
Volgo – Lehi é alguém de um talento absurdo e com muito potencial. Nossa parceria é uma troca e espero que volte a acontecer, pois ele criou todo o universo visual de Pindorama. Não creio que numa criação dessa exista uma distinção tão forte. Eu sou com certeza o roteirista e ele o artista, mas a partir do momento que ele coloca um roteiro no papel é como ele imagina a história que me materializa e isso tem grande influência em mim como roteirista. Também sugerimos coisas um ao outro o tempo todo.
NE10 – Como foi desde o processo criativo de Pindorama até o lançamento na CCXP Tour Nordeste? Quanto tempo de desenvolvimento de roteiro? E quanto tempo o Lehi levou para desenhar tudo?
Volgo – Fizemos o projeto em março de 2015, ele foi aprovado pelo Funcultura e o incentivo liberado em setembro de 2016. A partir daí, fizemos um cronograma até o CCXP, que serviu de muito aprendizado, mas até a verba sair muita pesquisa foi feita, bem como o desenvolvimento do que acontece no primeiro arco (primeira temporada).
NE10 – Qual foi a sensação de ter um trabalho publicado pela primeira vez?
Volgo – Que um universo que existia dentro de mim e na minha imaginação virou algo real que foge ao meu controle. É mágico.
NE10 – Você publicou sua primeira HQ. Como está encarando o desafio de ter que publicar mais nove volumes para fechar o arco?
Volgo – Com um pouco de apreensão, mas muito desejo, seja pelo medo de conseguir contar bem essa história e honrar meus personagens e o que imaginei, seja pela apreensão de não ter financiamento para bancar tudo. É uma luta constante fazer tudo acontecer sem uma indústria por trás, são mil funções que temos que assumir. Um trabalho árduo que toma tempo e cuja remuneração ainda parece distante.
NE10 – Como vai se dar a periodicidade da série? Já tem algum volume em desenvolvimento? Tem previsão para sua publicação?
Volgo – O segundo volume está em pré-produção em parceria com o artista Rapha Pinheiro e com previsão de lançamento na CCXP de SP. Precisamos de grana para o resto, então a ideia é que um episódio banque o outro. Sei que isso estica o tempo de produção da temporada e adoraria conseguir lançar um a cada dois meses, mas isso requer um time maior, estrutura e dinheiro para dedicação exclusiva ao projeto.
NE10 – Tem planos para a história fora dos quadrinhos?
Volgo – Eu tenho todo um arco de temporada delineado e tem muito, muito, muito o que acontecer nessa história. Meu plano utópico é transformar a série num seriado de TV, animação ou live-action, para o Netflix. Quero isso porque sei que é a única forma de a série se bancar e nos bancar e de ter mais mentes brilhantes para transformá-la e expandir o mercado de quadrinho/TV/roteiristas/etc no Brasil. E o principal: chegar no espectador. Para que um brasileiro possa dizer: peraí, isso foi feito sobre nós e por nós para o mundo? Precisamos trabalhar nossa autoestima cultural.
NE10 – E você, tem outros projetos em mente no ramo dos quadrinhos?
Volgo – Tenho vários projetos e argumentos delineados para quadrinho, musical, teatro, cinema, série... Penso em trabalhar com narrativas e suas diversas possibilidades, sendo o quadrinho o berço de criação de várias delas.
NE10 – Publicar uma obra no Brasil não é tarefa fácil. O que foi preciso para obter o apoio financeiro do Funcultura?
Volgo – Foi preciso fazer um projeto sério e competente e apresentar o rascunho de pessoas brilhantes como Lehi para provar que pode ser feito sim. Fico muito grato pela confiança que nos depositaram. Distribuição como independente tem sido um trabalho árduo de se fazer, especificamente morando em outro país. Ajudaria se as pessoas valorizassem o trabalho independente. Infelizmente, a publicidade e a grande mídia ainda dita o que deve ou não ser consumido pela população.
NE10 – Como você vê o atual cenário nacional e sobretudo pernambucano de quadrinhos independentes e experimentais, que apesar de apresentar ótimos trabalhos ainda sofre certa resistência? Há mais espaço no mercado hoje em dia?
Volgo – Conheci na CCXP pessoas fantásticas, como o pernambucano André Balaio, o Sapo Lendário, pessoas que tenho profunda admiração como profissionais. O trabalho desses caras é incrível, não deixa a desejar em nada e é muito melhor do que muitas narrativas ruins que a mídia promove. O Sapo Lendário está num nível Disney, Pixar, Ghibli... Falta a gente valorizar, redescobrir nossos talentos e investir no nosso cavalo. Vi na CCXP um surto geral para se consumir produtos gringos e interesse limitado em apostar no local. Não há apenas espaço, há demanda de bons profissionais e roteiristas, todos dizem isso, mas há uma limitação que é a do interesse da indústria preguiçosa pelo mais do mesmo, pelo que é seguro e consolidado e isso é um porre. Tem muita fagulha esperando para virar incêndio, muita gente jogando terra e pouca gente soprando esse fogo.
NE10 – Por que razão escolheu o fenômeno do tsunami para construir o cenário do desastre que parte do descaso público? Não seria mais representativo se fosse uma enchente, tratando-se do Recife? (risos)
Volgo – Hahaha. Li anos atrás que o Recife seria uma cidade afetada em caso de tsunami e aquecimento global por estar ao nível do mar. Vi praias serem destruídas e comidas pelo mar. Uma enchente não afogaria a cidade pelo mundo marinho e metros de água como um tsunami. No mais, sou um desses obcecados por Steven Spielberg, invasões alienígenas, meteoros e desastres naturais. Essas coisas que obrigam a gente a olhar para a vida da gente como algo precioso que precisa ser valorizado.

Notas literárias



Livro: Leitura plus size
Imagem: capa do livro

Leitura plus size

Os livros precisam avançar nas temáticas atuais, dialogar com os mais jovens e trazer novas perspectivas para a sociedade. É isso o que Dumplin’, best seller publicado no Brasil pela editora Valentina, faz: traz discussões como empoderamento feminino, discute a obesidade na adolescência, bullying e preconceitos em uma linguagem jovem.

A publicação conta a história de Willowdean Dickson, uma adolescente louca pela cantora Dolly Parton e que é filha de uma ex-miss. Ela precisa superar a perda da tia que era sua inspiração plus-size, além de uma segunda mãe. Ousada, Dumplin, como é chamada pela mãe, se inscreve no concurso de miss da cidade em que mora, no Texas (EUA). A partir desse fato, a história tem um desenrolar incrível. Willowdean quebra as barreiras do preconceito e acaba incentivando outras garotas, que eram discriminadas por não fazerem parte do padrão.

A autora, Julie Murphy, toca nesses assuntos delicados para a sociedade com muito bom humor e crítica. Ela é uma escritora em tempo integral e, antes de Dumplin, havia estreado com o aclamado Effects May Vary. O livro foi eleito o melhor na categoria de Jovens e Adultos pela American Library Association, Amazon e Booklist.

Por causa do sucesso, a história será adaptada para o cinema com a atriz Jennifer Aniston no papel de Rosie Dickson, uma ex-rainha de concursos de beleza e mãe da protagonista da trama, Willowdean Dickson - que será vivida por Danielle Macdonald.





Livro: Aqui a pressa anda ao lado da informação
Imagem: capa do livro

Aqui a pressa anda ao lado da informação

Pressa. Na correria do mundo moderno, ler e aprender conceitos através dos livros se tornou assunto raro. Na era da internet, um simples “google” promete saciar a nossa curiosidade de um jeito rápido e fácil. Mas, e se um livro pudesse fazer isso, só que com um maior aprofundamento?

Essa é, pelo menos, a perspectiva de “A História da Ciência para Quem Tem Pressa”, das autoras Nicola Chalton e Meredith MacArdle. Elas são especialistas em obras científicas e trazem um resumo bastante interessante sobre a história do que hoje rege toda a nossa vida: a ciência. As autoras mostram em uma linguagem simples e cativante como os seres humanos desenvolveram o pensamento científico no decorrer da história da humanidade.

O livro traz, em ordem cronológica, as principais descobertas de pensadores consagrados como Aristóteles, Charles Darwin, Newton, Descartes e Hawking e vai além: também inclui destaques da vida e do trabalho dos cientistas.

A História da Ciência para Quem Tem Pressa ainda faz parte de uma coleção best-seller da editora Valentina. A série ainda tem outras versões como A História do Brasil, A História do Mundo e A História da Mitologia. Tudo para quem tem pressa, mas não abre mão de estar bem informado.

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