Elias e a forma da fé

Aos 73 anos e com uma personalidade peculiar, Elias Sultanum vive na companhia dos santos que confecciona. Raramente sai de casa. Mas sua obra, sim. Essa ganhou a tela da TV e do mundo.

Por Adriana Victor
Fotos: Luiz Pessoa/JC Imagem


Há imagens em todos os cômodos do sobrado secular da beira-mar de Olinda, em todos os cantos: prateleiras, cadeiras, mesas, estantes, espalhados pelo chão, presos às paredes. São Jorge, São Pedro, Santo Antônio, São Francisco, São José, São Lucas, Santa Rita, Santa Cecília, anjos e mais anjos, muitas Nossas Senhoras. Mas Elias Sultanum, autor de todas elas, não sabe quantas são. Nem quantas imagens já criou, desde que começou a esculpi-las e moldá-las, ainda em cedro, madeira nobre. “Não tenho nada catalogado”, admite o artista.

Aos 73 anos, ele começou a sua criação santeira há mais de 15. Da madeira passou à resina; da resina às amálgamas desenvolvidas por ele: pó de serra, cola, fibra de coco. Com o tempo, as misturas que se transformam em santos depois de moldadas e coloridas foram também se modificando, incorporando novos ingredientes.

Escultura

Antes disso, agrônomo com carreira e talentos consolidados, Elias viajava pra lá e pra cá, Brasil inteiro, dedicando-se à indústria da cana de açúcar. Sempre em laboratórios, analisava solos, estudava plantas, desenvolvia técnicas para dizimar pragas e melhorar o canavial. “Tinha 30 dias no mês e os 30 ocupados”, afirma. “Fui muito bem sucedido na agronomia. Ela me deu tudo o que tenho. Sou um santeiro agrônomo. Pode?”

Elias provou que sim. Decidido a abandonar a vida nômade pelas usinas de cana do Brasil, indiferente à descrença dos amigos quanto à troca de ofício, lá se foi, dar forma à fé. Já nas primeiras peças criadas, agradou aos poderosos da política à época. O então senador alagoano Teotônio Vilela era comparador contumaz. Vendeu muitos santos também para Antônio Carlos Magalhães, o todo-poderoso baiano.

ACM chegou a oferecer ajuda para que o santeiro se instalasse num sobrado no Pelourinho, centro histórico de Salvador. Quando soube que Elias havia optado por Olinda, disparou: “Não imaginava que você fosse tão burro”. Certa vez, numa véspera de Natal, o ex-governador baiano perguntou quantos santos o artista tinha em casa. Comprou todos e decretou: “Embale na maior carreira do mundo e corra para o banco que o dinheiro já está lá lhe esperando”. Estava.


ENGANANDO O LADRÃO

Das novelas da Rede Globo aos altares de todo o Brasil e também do exterior: os santos e santas de Elias Sultanum são criados para ganhar o mundo - apesar de o artista nunca ter saído do País. “A última encomenda da Globo foi de vários santos do pau oco, todos iguais. Eles são sempre muito corretos comigo, mas não dizem em que programa as peças vão ser usadas. Só descubro quando vejo na TV”, revela Elias. Como não cataloga nem o que faz nem o que vende, ele conhece pouco sobre os destinos de suas criações. Afirma que vendeu muitas peças, por exemplo, para Portugal. E sabe que há diversas espalhadas por capelas e igrejas do Brasil.

Prateleira com esculturas

Alquimia, transformação e adaptação são parte do ofício. “Um padre pediu por tudo para que eu fizesse uma Santa Rita em três dias. O jeito foi pegar um São Gonçalo que já estava pronto e transformá-lo na santa encomendada”, confessa. “E ficou linda, linda.” Quando precisou criar um cristo crucificado em 24 horas, pôs uma barba num anjo e arrematou com pequenas modificações. “O mundo é feito por transformação. Quem não transforma é porque é burro demais”, declara.

Elias também tem história com Nossa Senhora dos Prazeres. Sob encomenda, deveria criar um réplica da imagem rara, do século 17, que fica nos Montes Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. Isso para que a cópia fosse às ruas em procissões e outras solenidades, sem risco para a original. Feito o serviço, ladrões invadiram a igreja para roubar a peça valiosa. Ao se depararem com duas imagens idênticas, acabaram roubando a cópia, julgando ser a original. “Coitado do ladrão. Acabou sendo iludido por mim.”


Artista Elias Sultanum

CRISTO BRASILEIRO

Desafio recente: um cristo com 2 metros de altura e cerca de 500 quilos para a capela de Nossa Senhora das Graças, que fica no Instituto Ricardo Brennand, no Recife. Livre para criar, decidiu que o seu Cristo teria feições brasileiras e não exibiria dor. “Fiz um Cristo rindo, falando com o povo da Igreja”. O Jesus de Elias acolhe, de braços abertos, os que chegam à capela.

Também fez para o local imagens de São Francisco de Assis e Santo Antônio. Cobrou pelas criações e recebeu do empresário Ricardo Brennand, autor da encomenda, bem mais do que havia pedido. “Ele disse que depois de tanto tempo eu ainda não tinha aprendido a cobrar pelo meu trabalho. Não quis receber, mas ele insistiu que se não me pagasse bem mais do que eu tinha cobrado, ele é quem estaria sendo desonesto”, conta sem arrodeios.

Foi usando uma blusa branca e nova que Elias Sultanum nos recebeu para a conversa. Depois, confessaria também sem firulas: “Custou R$ 8,50. Comprei na sulanca.” É com sinceridade e simplicidade que ele parece reger os seus dias - em contraponto à opulência, ao rebuscamento e às formas do barroco, estilo que dá o tom maior de suas criações. Acredita em Deus? “Deus faz parte da minha vida. Acreditar em Deus é acreditar na vida.” Elias não aceita participar de mostras ou exposições. Diz que quem quiser comprar seus santos precisa ir à sua casa. E que só deixa o sobrado para ir ao supermercado ou a enterro de amigos queridos. Por fim, declara satisfação com o que conquistou, disposto a seguir em frente: “Isso é a prorrogação da minha vida. Quando a pessoa é realizada, não quer mais nada”.

Deixe seu comentário:

Outras edições