VITORIOSA Lena superou a violência psicológica e agora auxilia outras mulheres

VITORIOSA Lena superou a violência psicológica e agora auxilia outras mulheres


PLENA Cileide foi a 1ª mulher a acionar a Lei Maria da Penha no Brasil

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REALIZADA Depois de quase ficar paralítica, Jane se formou em serviço social

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A volta por cima

Publicado em 31/12/2018

MONA LISA DOURADO
mldourado@jc.com.br

Cileide Cristina da Silva, 49 anos, costuma celebrar dois aniversários: um no dia 1° de outubro, quando nasceu; e outro em 22 de setembro, data da sua “alforria”, como define o momento em que tomou coragem de denunciar o seu agressor. O processo de libertação teve início em 2006, no mesmo dia em que entrava em vigor a Lei Maria da Penha. Cileide foi a primeira mulher no País a acionar a nova legislação, para escapar de um ciclo de violência doméstica que já durava duas décadas. Hoje, com simplicidade e sabedoria, faz questão de contar a sua história, para que “vá mais longe” e encoraje outras mulheres a seguirem o mesmo caminho antes que seja tarde demais. “A violência psicológica faz você achar que não tem saída. O medo paralisa. Não é fácil, mas estou aqui para provar que todas, de qualquer classe social, podem se libertar”, enfatiza Cileide, moradora da comunidade da Charneca, no Cabo de Santo Agostinho, Grande Recife.

Quem vê a mulher sorridente, altiva e empoderada que distribui alegria por onde passa não imagina o sofrimento e a humilhação a que ela e os quatro filhos foram submetidos em anos de xingamentos, surras e ameaças do ex-marido, Francisco. “Era uma tortura. Eu não podia comprar nem desodorante, porque ele dizia que sair perfumada ‘era coisa de vagabunda’, também não decidia o que comer, o que vestir, como pentear o cabelo, não podia conversar com ninguém, nem com minha mãe. E se eu me recusava à noite a cumprir o que ele chamava de meu ‘papel de mulher’, ele batia nos nossos filhos e dizia a eles que estavam apanhando por minha culpa”, recorda, já sem consternação. “Quando paro para pensar na minha vida hoje, só posso dizer que ela é maravilhosa. Sou feliz, brinco, me sinto viva, falo com todo mundo”, contrapõe, com a risada que passou a ser a sua marca e que por pouco não foi completamente silenciada.

Naquele 22 de setembro de 2006, a filha mais velha de Cileide, então com 15 anos, lia para ela um panfleto achado na rua sobre os direitos previstos na Maria da Penha. Tentava convencer a mãe a denunciar Francisco, quando ele chegou de repente. Cileide tentou esconder o papel, mas o panfleto voou e caiu “bem nos pés dele”, conta. “Ele picotou e disse que eu ia comer cada pedaço.” Mas a menina interferiu. Cileide foi jogada contra a geladeira de casa e viu a filha ser pega pelo pescoço e empurrada contra um espelho. Sabia que tinha chegado ao limite. “Nessa hora tomei a melhor decisão da minha vida. Liguei para o Centro de Mulheres do Cabo, que acionou a polícia, e levei minha filha, toda cortada, para o hospital. Enquanto isso, ele quebrou tudo em casa e saiu como se nada tivesse acontecido”, lembra.

Desta vez, no entanto, o desfecho da história foi diferente da impunidade a que os agressores estavam habituados. Francisco foi preso no mesmo dia em que agrediu a mulher e a filha pela última vez. Quando saiu da prisão, tentou se reconciliar, mas Cileide já não acreditava em mudanças. Diante da negativa, ele passou a persegui-la, e até uma pensão “teve a cara de pau de pedir”, desabafa ela, que passou a sustentar sozinha a família com uma barraca de frutas e doces. “Mas a lei me protegeu. O juiz mandou ele manter 300 metros de distância de mim e das crianças”, diz Cileide, que desde então não tem contato com o ex-marido. “Não sofri com a separação, não tinha momento bom pra lembrar. Foi um recomeço. Quando você é dona da própria vida, nunca mais quer abrir mão disso”, afirma.

Plenitude também é o que sente hoje Alberjane Farias, 45, que transformou em bandeira de atuação profissional e política a dor causada por uma relação violenta que quase lhe custou a vida. Educadora social da Secretaria da Mulher do Recife, Jane, como é mais conhecida, atualmente discute a temática de violência de gênero com crianças e mulheres em escolas e comunidades. “Após muito tempo de sofrimento, voltei a trabalhar e fiz um curso chamado Mulheres da Paz. Comecei a estudar e não parei mais”, diz ela, que no ano passado concluiu o curso superior em assistência social e, no momento da entrevista, preparava-se para apresentar seu primeiro artigo em um evento acadêmico em Salvador.

Uma volta por cima e tanto para quem era chamada de “incapaz, doida e bruxa”. Apenas alguns dos adjetivos depreciativos usados pelo ex-companheiro e pai dos seus dois filhos, com quem viveu durante 11 anos. “Ele controlava horários, amizades e normatizava tudo como ciúme. Também me batia com requintes de crueldade e me estuprava quando eu não queria sexo. Certa vez, ameaçou queimar meu corpo com pontas de cigarro enquanto me submetia a uma inquisição sobre ‘os machos do hospital’ onde eu trabalhava”, relata Jane, lembrando ainda de outro episódio em que foi obrigada a ir com o braço levantado num trajeto de moto entre os bairros do Derby e Piedade por ter cumprimentado colegas na rua. “Quando eu tentava baixar, ele acotovelava minha barriga.”

Mudam os personagens e os cenários, mas o roteiro pautado pelo machismo é quase sempre o mesmo quando se trata de minar a autoestima feminina. Não por acaso a narrativa de Jane, Cileide e tantas outras mulheres se confunde ao descrever o padrão de comportamento dos agressores que convertem o lar em um ambiente de terror.

O capítulo mais extremo vivido por Jane inclui cinco meses em uma cadeira de rodas e o pavor de não recuperar os movimentos. Ao tentar se desvencilhar de mais um ataque, ela caiu do segundo andar do prédio onde morava. Apesar da denúncia dos vizinhos, a investigação policial não prosseguiu. “Ele dizia que se eu o entregasse me asfixiava ali mesmo no hospital. Eu só mexia os olhos e não tinha ninguém por mim. Tive medo”, resigna-se.

Relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) confirma o que os depoimentos das vítimas já denuncia: o lugar mais perigoso para uma mulher é a própria casa. Apresentado no último mês de novembro, baseado em dados de 2012 a 2017, o documento mostra que, no mundo, a proporção de vítimas mortas por companheiros ou parentes é de seis em cada dez das 50 mil mulheres assassinadas no ano passado. Tragédias anunciadas, aponta o relatório, os assassinatos cometidos por parceiros ou familiares geralmente não são surpresa, mas resultado de abusos domésticos anteriores, sejam psicológicos, sejam morais, físicos, patrimoniais ou sexuais. Em Pernambuco não é diferente. Entre as 73 vítimas de feminicídio no Estado, de janeiro a novembro de 2018, quase 80% (57) foram mortas por companheiros e ex-companheiros, segundo levantamento do projeto #UmaporUma.

Impedir que o relacionamento abusivo se transforme em feminicídio é um desafio que envolve não só uma decisão pessoal, mas principalmente investimentos em políticas e serviços de atenção a mulheres, mostra outra pesquisa, liderada pela Universidade Federal do Ceará e Instituto Maria da Penha, em parceria com instituições internacionais. Segundo o estudo, realizado nas nove capitais do Nordeste, 27% das mulheres com idades entre 15 e 49 anos já foram vítimas de violência doméstica ao longo da vida e 17% já foram agredidas fisicamente pelo menos uma vez.

Izabel Santos

“É essencial ter uma ampla rede de apoio e proteção à disposição dessas mulheres”

diz Izabel Santos

Cada processo para romper esse ciclo é muito distinto. Depende do medo às ameaças e do nível de violência que sofrem. Até lá é um caminho árido e solitário. Por isso, é tão essencial ter uma ampla rede de apoio e proteção à disposição dessas mulheres, que vai além das delegacias e inclui grupos comunitários, casas-abrigo e outros equipamentos que ajudem a tirar essa mulher do contexto de violência e a fortalecê-la”, diz a especialista em direitos humanos, terapeuta comunitária e coordenadora da escola feminista de formação política do Centro de Mulheres do Cabo, Izabel Santos.

No caso de Jane, o gatilho para finalmente sair do relacionamento foi a gravidez do segundo filho e mais uma das incontáveis traições do ex-companheiro. “Fiquei preocupada de meu filho ser criado num ambiente machista e reproduzir a violência e o comportamento do pai. Já bastava o que a minha filha, na época com 8 anos, tinha passado assistindo a tudo aquilo.”

Passada mais de uma década, Jane julga que venceu a batalha por um futuro melhor para ela e os filhos. Pela primeira vez, também experimenta uma relação amorosa saudável. “Estou muito feliz, numa boa fase da minha vida, me permitindo ser cuidada. Não quero fazer outra coisa senão lutar para que outras mulheres e crianças tenham o mesmo direito”, diz, orgulhosa de quem é, de suas conquistas e da família que reestruturou.

JUNTAS, SOMOS MAIS FORTESEm rodas de terapia comunitária, mulheres dão as mãos e se abraçam numa dinâmica de confiança e apoio mútuos

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Ninguém solta a mão de ninguém

MONA LISA DOURADO
mldourado@jc.com.br

“Elas não desistiram de mim”, diz Josefa Pereira dos Santos, 47 anos, ao contar como deixou para trás dez anos de violência psicológica praticada pelo marido e pela família dele. O depoimento de Lena, como gosta de ser chamada, reflete o sentimento de tantas outras vítimas de agressões. Segurando a mão de uma mulher que supera a violência doméstica, há sempre uma ou muitas outras mulheres.

No caso de Lena, esse suporte começou com uma vizinha, que percebeu a sua condição e a convidou para participar de uma Roda de Terapia Comunitária. A iniciativa é uma das muitas frentes de acolhimento mantidas pelo Centro de Mulheres do Cabo (CMC) em municípios da região.

“No início, eu ia muito calada. Tinha vergonha. Mas quando ouvia a fala das outras, pensava: ‘eu passo por tudo isso’. Foi só quando percebi que sofria violência e comecei a ter coragem de me libertar”, desabafa Lena, que permanece casada, mas mudou completamente as bases da relação. “Antes, marido, sogra e cunhados tinham que aprovar tudo: das roupas que eu vestia ao jeito de criar meus filhos. Me faziam apenas de empregada do lar. Agora faço o que quero, do jeito que quero. Não foi fácil pra ele aceitar. Teve muita resistência, ele até quis sair de casa, mas hoje já não interfere e não reclama”, relata, vitoriosa, a mulher que deixou a condição de vítima para assumir a de ativista. Integra o Grupo Mulher Ação, de Escada, entre outras articulações de mulheres, e passou a vender cosméticos para também ter independência financeira. “Ajudar outras mulheres é mostrar que você está fortalecida, que você saiu do ciclo. E se você pode, elas também podem”, ensina.

Estimular a solidariedade e a auto-organização de grupos nas comunidades é o principal objetivo das rodas de terapia, que já contaram com a participação de mais de mil mulheres desde 2010, quando foram criadas. Atualmente, há oito ativas, no Cabo e em Ipojuca, com 15 a 25 mulheres de todas as faixas etárias que se reúnem mensalmente durante cerca de duas horas. “Há toda uma dinâmica facilitada por uma ou duas terapeutas que prepara as mulheres para que elas possam se abrir e falar dos problemas que lhes tiram o sono ou causam desespero. A violência doméstica prevalece”, descreve a terapeuta comunitária do CMC Izabel Santos, detalhando que dar as mãos e se abraçar fazem parte da dinâmica de apoio e confiança.

Conectar mulheres também é a função do aplicativo Mete a Colher, lançado em julho de 2017 como um espaço virtual seguro para falar dos principais problemas que afetam quem vive um relacionamento abusivo: falta de apoio emocional, desconhecimento de direitos e dependência financeira do companheiro. Em pouco mais de um ano, a ferramenta já interligou via chat pelo menos duas mil mulheres que precisavam de ajuda a outras cerca de 10 mil voluntárias dispostas a ampará-las.

“A gente faz essa conexão porque acredita que contar com suporte e escuta é fundamental para quem está em situação de vítima se sentir fortalecida, acolhida, saber que não está ‘louca’ nem sozinha, porque esse processo é muito doloroso. Em 70% dos casos, registramos que as mulheres precisam de um apoio emocional, de fazer um desabafo”, explica a co-fundadora do app Renata Albertim, para quem, em briga de marido e mulher, é preciso meter a colher, sim.

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  •   Júri Popular
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